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Gastroenterite causada por Aeromonas:
relato do primeiro diagnóstico em Santa Cruz do Sul

Inácio Swarovski*
Marion P. Rocha**

Relato do Caso:
A paciente D. S., 46 anos, branca, transplantada renal, fazia uso de imunossupressores e foi submetida a mastectomia bilateral. Após tratamento quimioterápico, foi submetida a laparotomia objetivando oforectomia esquerda por suspeita neoplásica. Nesta cirurgia, não foi possível abordagem do ovário pelo grande número de aderências intestinais causadas por peritonites durante o período de diálise peritoneal.

Passadas duas semanas de cirurgia, em 5 de janeiro de 2003, a paciente procurou atendimento médico de emergência no Hospital Ana Nery em Santa Cruz do Sul (RS), apresentando quadro de diarréia, dor em fossa ilíaca direita e distensão abdominal. Febre de 38°C, sem vômitos. A diarréia era aquosa, com grande volume, odor muito fétido, duas a três evacuações ao dia, intercaladas por constipação. Pesquisa de leucócitos fecais foi positiva (+ + +). Foi solicitada coprocultura que, após 48 horas, indicou a bactéria Aeromonas spp. como provável causadora da diarréia. O quadro evolui com dor, distensão abdominal e sinais de irritação peritoneal. Persistiu por cinco dias, tendo havido melhora espontânea, sem tratamento antimicrobiano. A referida bactéria foi enviada ao Instituto Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro (RJ) onde o laboratório de referência identificou como Aeromonas caviar.

A paciente encontra-se bem até hoje, passados 12 meses do episódio.

Discussão:
Aeromonas são bacilos gram–negativos da família Vibrionaceae, crescem nos meios de cultura convencionais, sendo facilmente confundidos com enterobactérias. São consideradas como patógenos em hospedeiros imunocomprometidos desde 1968 (1). Em pacientes debilitados, infecções por esta bactéria podem ser fatais (2, 3, 4). Casos de diarréia em humanos, em que Aeromonas foi o organismo predominante da flora fecal aeróbica, foram relatados em muitos países de todos os continentes. Alguns pacientes apresentam sintomas gastrointestinais adicionais, com náuseas, vômitos, dor abdominal e desidratação.

Entretanto, esta bactéria pode também ser isolada das fezes de 0,2 a 0,7% dos indivíduos aparentemente saudáveis (4, 5). Nas formas mais leves, as gastroenterites por Aeromonas assemelham uma diarréia secretória, típica das causadas por muitos outros patógenos entéricos. Nas formas mais graves, assemelha-se a uma shigelose ou disenteria bacilar, em que as fezes apresentam sangue e numerosos leucócitos fecais. Além das gastroenterites, podem ocorrer infecções por Aeromonas em outros sítios.

Infecções de feridas usualmente ocorrem quando a superfície mucosa é lesionada e exposta ao contato com água, solo ou produtos marinhos, durante atividades recreacionais ou ocupacionais (5).

Aeromonas têm como habitat natural os ambientes aquáticos e alimentos relacionados à água, como hortaliças. Diferentes espécies de Aeromonas têm também sido encontradas em produtos de lancherias, carnes e frutos do mar (6, 7).

A paciente D. S. não referiu nenhuma provável origem da bactéria causadora da infecção. É improvável a situação de ela ter sido portadora assintomática previamente em função da imunossupressão e quimioterapia serem fatores agravantes aos portadores de enteropatógenos.

A melhora espontânea de pacientes, sem uso de antimicrobiano, não é regra. Em geral, é usado antibiótico com espectro de eficácia para bactérias gram–negativas, exceto ampicilina pela clássica resistência da Aeromonas a este antibiótico.

O achado da bactéria ocorreu pelo uso do Agar UNISC (8) criado em Santa Cruz do Sul (RS) e utilizado na rotina do Laboratório ENZILAB.
Os autores alertam ao fato de que vários outros casos clínicos podem estar sendo causados por Aeromonas spp., sem correto diagnóstico laboratorial.

Referências Bibliográficas:
1 – ALCIDES, A. P.P.; GUIMARÃES, M. S.; FERREIRA, M. C. S. Aeromonas em hortaliças mantidas sob refrigeração. Anais, XIX Congresso Brasileiro de Microbiologia, Rio de Janeiro, 1997.
2 – BARON, E. J.; PETERSON, L. R.; FINEGOLD, S. M. Vibrio and related species, Aeromonas, Plesiomonas, Campylobacter, Helicobacter and others. In: BARON, E.J.; PETERSON, L. R.; FINEGOLD, S. M. Diagnostic microbiology. Mosby-year book, Inc., St. Lowis, 1994, p. 429-43.
3 – BURKE, V. et. Al. The microbiology of childhood gastroenteritis: Aeromonas species and others infective agents. J. Infect. Dis., 1983, 148: 68-74.
4 – DAILY, O. P. et. al. Association of Aeromonas sobria with human infection. J. Clin. Microbiol., 1981, 13: 769-77.
5 – CUMBERBATCH, N. et. al. Cytotoxic enterotoxin produced by Aeromonas hydrophila: relationship of toxigenic isolates to diarrheal disease. Inf. and Immun., 1979, 23: 829-837.
6 – JANDA, J. M.; ABBOTT, S. L.; CHARNAHAN, A. M. Aeromonas and Plesiomonas. In: MURRAY, P. et. al. Manual of clinical microbiology. Washington: A. S. M., 1995.
7 – ELLIOT, R. P. et. al. Bacterias productoras de enfermedades transmitidas por los alimentos. In: Microorganismos de los alimentos 1 – técnicas de análisis microbiológico. Espanha: Acribia, 1982, p. 43-4.
8 – ROCHA, M. P. Agar UNISC: um novo meio de cultura para isolamento de Aeromonas spp.. Monografia – Universidade de Santa Cruz do Sul (RS), 2000.

* Médico proctologista
** Bioquímico do Laboratório ENZILAB


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