Blastocistoses por Blastocystis
hominis
Tatiana Kurtz*
Caio Rossi**
Marion P. Rocha***
Caso 1:
Paciente P. O. F., masculino, 17 anos, veio à
consulta. Relatou estar com diarréia há
2 meses, com 3 a 4 evacuações por dia.
Apresentava pouca dor abdominal do tipo cólica
e poucas flatulências. Não apresentava
febre nem vômitos. Usou amoxicilina para tratar
uma faringite bacteriana. Houve melhora da faringite
sem ter melhorado a diarréia. Foi solicitado
hemograma, coprocultura, pesquisa de leucócitos
fecais e parasitológico de fezes. O hemograma
mostrou 6% de eosinófilos, sem outras particularidades.
Coprocultura sem crescimento de patogênicos.
Leucócitos fecais positivo (+). O parasitológico
de fezes demonstrou grande quantidade de Blastocystis
hominis. Sem outra evidência de causa da diarréia,
foi diagnosticada blastocistose e prescrito tratamento
com metronidazol 250mg de 8 em 8 horas por 10 dias.
Houve nítida melhora em 24 horas. Desapareceram
os sintomas sem recidivar.
Caso 2:
Paciente A. C., masculino, 1 ano e 7 meses, veio à
consulta com diarréia a esclarecer. Sua mãe
relatou que a criança não apresentava
febre, vômitos ou dor abdominal. Ao exame físico
apresentava-se com bom estado geral, hidratado, ativo,
bom ganho pondero-estatural. Abdome normotenso, indolor,
sem megalias. Demais sem particularidades. Foi solicitado
hemograma e parasitológico de fezes em 3 amostras,
com especial atenção para pesquisa de
Giardia lamblia. O resultado do hemograma foi normal,
sem eosinofilia. O parasitológico de fezes
mostrou muitos Blastocystis hominis em 2 amostras.
Sem outra evidência de causa da diarréia,
foi diagnosticado blastocistose e iniciado tratamento.
Foi usado metronidazol 30mg/kg/dia por 10 dias. Paciente
retornou 20 dias após, assintomático,
sem qualquer queixa.
Revisão da Literatura:
Até há poucos anos Blastocystis hominis
era considerado um fungo. Hoje, sabidamente um protozoário
parasito intestinal, de potencial invasivo, tem sido
alvo de controvérsias.
Em 1984, Ricci e col levantaram a questão
de se o B. hominis não teria sido esquecido
ou posto à margem como causa de diarréia.
Esse fato estimulou de modo acentuado o interesse
pelo B. hominis, com vários casos de doença
sendo registrados nos Estados Unidos, Inglaterra,
Tailândia, Nepal, Zaire, Iugoslávia,
Canadá e Egito. O B. hominis tem sido encontrado
em doença gastrointestinal epidêmica
nas regiões subtropicais e como diarréia
esporádica, em qualquer parte do mundo.
A despeito de registros de casos ocasionais desde
1967, muitos epidemiologistas e clínicos consideram
sua presença em fezes humanas de significado
pelo menos potencialmente patógeno e não
como um simples comensal.
Em excelente estudo prospectivo para avaliar a epidemiologia
e patogenicidade do B. hominis em pacientes examinados
em ambulatório de clínica médica,
Doyle e col. conseguiram selecionar, mediante um questionário
e seguimento do exame de fezes, 530 casos (13,2%)
de B. hominis em 16.545 amostras fecais examinadas,
sem associação de bactérias e
outros parasitos patógenos. Havia um espectro
de apresentação clínica patológica
em 143 pacientes estudados. Os portadores assintomáticos
foram 19 e em 15 houve um quadro de enterite aguda
autolimitada. Na avaliação epidemiológica
de 130 pacientes, os sintomas mais comuns dos pacientes
infectados dor abdominal, diarréia aquosa e
flatulência. O encontro de B. hominis nas fezes
de pacientes imunocomprometidos por doenças
orgânicas do intestino grosso, como por exemplo,
a neoplasia do cólon, a diverticulose cólica
e a alergia intestinal, estando estes pacientes com
diarréia prolongada ou recorrente, pode ser
interpretado como conseqüência da ação
causal desse organismo na produção dos
sintomas. O tratamento desses pacientes com metronidazol
faz desaparecer por completo a sintomatologia . Em
pacientes pediátricos, Zaki e col referem-se
ao encontro de 39 crianças infectadas em 1.960
examinadas. A dor abdominal, tipo cólica, com
ou sem diarréia, estava presente em 82% dos
casos, sendo aguda em 35%, subaguda em 18% e crônica
em 28,2%. Em sete crianças não se observaram
sintomas. As crianças com quadro agudo, com
dor abdominal em cólicas, difusas a todo o
abdome, apresentaram diarréia aquosa e vômitos.
Os demais casos, subagudos ou crônicos, mostraram,
ao lado da dor ou desconforto abdominal, eliminação
de fezes diarréicas ou não, gases e
flatulência. Na opinião de vários
autores, a blastocistose, como qualquer outra doença
humana, depende da interação entre o
parasito e o hospedeiro. Não se sabe, a exemplo
do que ocorre com a infecção pela Entamoeba
histolytica, se existem formas patógenas e
não-patógenas do B. hominis.
Vários casos de colite parasitária
com a presença de leucócitos observados
nas fezes têm sido relacionados à presença
do B. hominis, como único agente encontrado.
Ao encontrar B. hominis no parasitológico de
fezes, o laboratório deve semiquantificar o
resultado, expressando se foram vistas raras, algumas,
ou muitas células do referido organismo. Pode
também ser expressado em cruzes (+ a + + +).
Entretanto, seria um raciocínio muito simplista
correlacionar todos os achados de B. hominis nas fezes,
com o quadro clínico deste pacientes, mesmo
em achados de grande número. Deve-se pensar
em várias outras causas. Na ausência
de evidência de outra causa pode-se estabelecer
o diagnóstico de blastocistose à luz
do potencial patógeno do seu agente causal.
Tratamento:
1ª escolha: Metronidazol de 250 a 500mg duas
vezes ao dia, durante 7 a 10 dias, para adultos. E,
para crianças, 30 a 50mg/kg/dia em 3 doses,
por 10 dias.
2ª escolha: Sulfametoxazol - trimetoprim.
3ª escolha: Tinidazol. Sua eficiência é
apenas moderada, promovendo a erradicação
do parasito em 49% dos casos .
4ª escolha: Ketoconazol. Recomendado em infecções
resistentes, quando os outros medicamentos não
surtiram resultados favoráveis.